Arquivo do mês: setembro 2007

Qual será o filme brasileiro no Oscar 2008?

Foi publicado hoje no blog da Revista de Cinema que o filme brasileiro candidato à vaga de melhor filme estrageiro no Oscar 2008 será decidido amanhã. Entre os dezoito inscritos está “O ano em que meus pais saíram de férias“, dirigido por Cao Hamburger, o meu escolhido. Não assisti a nenhum dos outros filmes da lista, por falta, principalmente, de tempo e dinheiro. Mas digo que “O ano…” é meu escolhido por considerá-lo um dos melhores filmes brasileiros a que já assisti, e acho que tem chance de ser escolhido como um dos finalistas pela Academia pois tem muitas das características que ela gosta. Tenho quase certeza de que os jurados brasileiros escolherão um filme nos moldes daquilo que ela gosta, e nessa, mesmo não tendo assistido aos filmes da lista, sei que alguns não tem chance, como Três irmãos de sangue, já que não é do feitio da Academia “oscarizar” um documentário nessa categoria — nem em nenhuma outra, exceto na de melhor documentário.

Já é sabido que há um intenso lobby por trás de cada filme “em disputa” no Oscar, e que a Academia tem preferência por certos tipos de filmes, enquanto despreza outros. O Oscar é a premiação do cinema comercial de língua inglesa por excelência, não há espaço para o cinema experimental, exceto para aqueles que tenham sucesso comercial nos Estados Unidos. Os filmes premiados, além de terem grande sucesso, são todos bons ou até mesmo excelentes, muito bem feitos tecnicamente, não deixando nada a desejar como cinema. Agora, se o Oscar é uma premiação válida e yada yada yada, isso é uma outra conversa.

Sabendo do exposto no parágrafo anterior, o filme Tropa de elite será distribuído nos Estados Unidos pela The Weinstein Company, produtora dos irmãos Weinstein, os fundadores da Miramax, conhecidos como grandes lobbystas. “Cidade de Deus” também foi distribuído por eles nos EUA e teve quatro indicações — de melhor fotografia, edição, roteiro e direção — feito que nenhum filme brasileiro conseguiu até então. Logo, é outro importante candidato.

Para ver os filmes inscritos, os jurados e mais informações visite aqui ou aqui.

O resultado será divulgado amanhã, às 16h.

Update
O escolhido foi “O ano em que meus pais saíram de férias”. :-)


Existe “pré-história”?

Um tema bastante discutido durante o primeiro semestre de minha graduação em História foi o do termo “pré-história”. Ironicamente, esta discussão não se deu durante a cadeira de Pré-história, mas, sim, na de Teoria e Metodologia da História I, na qual se busca a reflexão do conhecimento histórico e das diversas correntes historiográficas. Era discutido se o termo “pré-história” seria o ideal para designar aquele período do passado humano anterior ao desenvolvimento da escrita, como aprendemos em nosso primeiro contato com a disciplina, no ensino fundamental. O centro da discussão girava em torno do termo ser pejorativo, ou mesmo errado, pois daria a entender que o que havia anteriormente ao surgimento da escrita não seria considerado história. Esta concepção surgiu dentro de uma perspectiva positivista da história, na qual se acreditava que apenas a análise profunda dos documentos escritos poderia comprovar as hipóteses formuladas nos estudos históricos.

História não é arte, mas uma ciência pura [...] a busca dos fatos é feita pela observação minuciosa dos textos, da mesma maneira que o químico encontra os seus em experiências minuciosamente conduzidas. (Fustel de Coulanges, citado em O Positivismo, Os Annales e a Nova História) [grifo meu].

No século XX os historiadores perceberam essa limitação dentro da História e buscaram novos caminhos. A Escola dos Annales foi o primeiro movimento com o intuito de quebrar essa rigidez. Logo vieram a Nova História, bifurcação da Escola dos Annales, a História Cultural, a História Social, etc. Todas elas procuraram inserir métodos de outras ciências humanas — Antropologia, Geografia, Psicologia e Sociologia — dentro da perspectiva de análise histórica.

A ciência histórica é, grosso modo, aquela que procura pesquisar o passado tendo como objeto o ser humano e suas ações, logo, desde o surgimento do homem até os dias atuais e futuros. Portanto, não deixa de ser um paradoxo a utilização do termo “pré-história”. Apesar de muitos acadêmicos não considerarem este termo o ideal para designar o período pré-escrita, ele ainda é largamente utilizado. Ou seja, o termo ainda é utilizado, mas não da forma como foi concebido.


Anonimato na Internet

Lendo os comentários dos jogos no site da Copa de Literatura Brasileira me deparei com um dos lados obscuros da Internet, um de seus lados mais patéticos. Aliás, pessoas patéticas, digo, que se escondem atrás do anonimato e de pseudônimos — uma maneira romântica de anonimato — para exporem suas opiniões. É uma tremenda falta de coragem se esconder atrás deste tipo de coisa. Engraçado que em comentários seguidos aconteceram duas coisas que podem ser incluídas no meu ranking “coisas patéticas que presenciei na Internet”.

A primeira foi o comentário de alguém utilizando um pseudônimo que “pertence” a outra pessoa — covardia em dobro não vale: “Você tem tanta coragem quanto uma barata ao usar um pseudônimo“. Oh boy! Duas colheres de covardia e uma de incoerência. As pessoas precisam cair na real e se dar conta de que a Internet não é brincadeirinha, onde tudo pode. Pessoas deste tipo parecem que a descobriram ontem e estão deslumbradinhas.

A segunda foi pior, por incrível que pareça. Uma pessoa deixou o seguinte comentário:

[...] nesse espaço de rede tem de tudo e acho ótimo essa liberdade de ser quem se quer ser, já que o fingimento é a convenção aceita por aqui. Quem quer assumir identidade verdadeira cria um site e põe o retrato nele, não é mesmo? Experimentei aqui pela primeira vez um nick masculino, quis falar [...] de “homem pra homem”, mas acho que continuo falando como mulher (que sou), é engraçado, mas o nick de homem soou meio falso pra mim. [...]

Como assim liberdade de ser quem quiser ser? As pessoas estão mais fucked ups do que pensei. Não é porque se está na Internet que não se é… você! Não adianta trocar um nome, não adianta tentar se passar por outra pessoa pois aquela pessoa na frente do teclado vai continuar a mesma — a não ser que tenha sérios distúrbios de personalidade — sem conseguir enxergar qualquer discussão sob outro ponto de vista. Até porque, escondendo-se sob esse anonimato, mostra-se uma pessoa tão limitada que não teria capacidade de enxergar qualquer coisa além do próprio umbigo.

Nessas horas que pergunto: que convicção uma pessoa que se “anonimiza” tem naquilo que escreve se nem a porcaria do nome assina? Aí elas retrucam com aquele velho discursinho da imprensa quando quer falar qualquer abobrinha: “liberdade de expressão”. É verdade, a Constituição Federal, no seu artigo 5º, incisos IV e V, assegura a liberdade de expressão e o direito de resposta, da seguinte maneira:

IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
V – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem; [grifos meus]

Ou seja: fale o que quiser, mas agüente as conseqüências. E, completando, quem não se identifica é covarde sim, a ponto de querer se esquivar de possíveis conseqüências. As pessoas têm a ilusão de que o anonimato na Internet é eficaz. Mal sabem que o número IP é perfeitamente rastreável, desde que se tenha os instrumentos corretos, tanto técnicos quanto jurídicos. Se nós, reles mortais, com um simples sistema de estatísticas conseguimos saber até a cidade de determinado número IP, imagine um especialista em segurança de redes!


Linux para o usuário básico de computador

Há algumas semanas li este post de autoria de Flavio Furlan no qual ele, em dado momento, questiona alguns membros da chamada comunidade open source, principalmente do Linux, e para isso cita uma frase que encontrou em um fórum:

Linux: para quem não tem preguiça de aprender.

Pode não ter sido a intenção do autor da frase, mas concordo com o autor do post de que esta frase tem uma certa arrogância embutida, e sua leitura me fez voltar a refletir algo que penso sobre tudo isso. Acredito que a maioria dos entusiastas do Linux quer que cada vez mais pessoas passem a utilizá-lo como sistema operacional. Ele é, hoje em dia, o carro chefe do movimento open source, em que vários usuários de vários pontos do planeta ajudam no desenvolvimento de softwares de código aberto. O princípio básico desta filosofia é o da cooperação. Interpreto, também, segundo esta filosofia, que sempre há alguém que sabe mais do que você, portanto, não hesite em pedir ajuda — é para isso que os fóruns existem. Mas há quem usa o Linux e é “adepto” desta filosofia mas não a entendeu até agora. Para este tipo de pessoa parece que há uma competição, na qual o mundo do Linux e do software livre é somente para os dignos de conhecimento, ou para aqueles que “não têm preguiça em aprender”.

Realmente, quem quiser instalar ou usar o Linux hoje em dia pode precisar de disposição para correr atrás de informações para deixar o sistema funcionando 100%. Mas a maneira como a frase foi escrita generaliza demais a questão. Se compararmos ao Windows 9x, por exemplo, muitas das distribuições hoje são infinitamente mais fáceis de usar. E mesmo assim ele foi um sistema popular, talvez pela falta de competitividade, não sei, mas esta é outra discussão. Não era necessário “não ter preguiça” para aprender a usá-lo. Quem nunca teve problemas ao instalar os famosos softmodens e acabou pedindo ajuda?

O fato é que o usuário final quer um sistema fácil de usar, que tenha o máximo de automatização sem a necessidade de entrar em linhas de comando e coisas do tipo, até porque, quem não usou a dobradinha DOS e Windows 3.x, não tem a mínima noção de trabalhar com linhas de comando. Cito minha experiência própria, em que meu conhecimento em DOS permitiu que tivesse noção de como trabalhar com a linha de comando do Linux, pois a estrutura é basicamente a mesma, só precisei aprender os comandos.

Desde que comecei a ouvir falar em Linux tive interesse em usá-lo, pelos seguintes motivos:

  • o fato de ser um software livre. Na época ainda não entendia muito bem a filosofia, mas já buscava alternativas freeware à Microsoft e aos softwares pagos. Por exemplo, usava o Opera para navegar na Internet e o Arachnophilia para fazer meus websites.
  • a famosa estabilidade — que não é famosa à toa. Quem usou o Windows 9x sabe qual é a sensação de enfrentar a famosa tela azul com bastante freqüência.

A primeira vez que tentei instalá-lo foi em 1998, se não me engano, com um CD da revista PC Master que trouxe ou o Conectiva ou o Red Hat Linux. Na época ele já estava começando a se popularizar, as distribuições já davam sinais de querer melhorar a interface e deixar o lado do usuário mais prático. Mas ainda assim era uma tarefa complicada instalá-lo. Lembro de não ter conseguido configurar o modem e a placa de som, mesmo depois de penar muito, o que me fez desistir de usá-lo.

O Windows XP evoluiu muito no quesito “aparecimento da tela azul” — ao menos nunca ocorreu comigo — mas ainda é um sistema bastante instável, o que me fez, novamente, procurar o Linux, muito mais popular agora. Depois de enfrentar alguns problemas de compatibilidade de softwares com a versão 64 bits do Ubuntu, agora sou um satisfeito usuário da versão 32 bits. Mas tive que entrar algumas vezes na velha linha de comando para configurar a placa de vídeo e instalar alguns softwares. Portanto, se já é difícil algum usuário básico querer utilizar o Linux, e se, quando bate a vontade, precisa fazer algo do tipo, volta para o Windows por dois motivos:

  1. lá ele já tem noção de como se faz as coisas;
  2. qual o sentido de aprender algo novo se no Windows ele tem tudo aquilo de que precisa? Seria algo como reinventar a roda.

Para falar a verdade, a maioria dos usuários não está nem aí se está usando Windows ou Linux, estes usuários querem mesmo é algo que os permita navegar na Internet, entrar no Orkut, ler e enviar e-mails, digitar trabalhos, conversar no messenger, jogar, etc. Não é, portanto, questão de preferência, é questão de praticidade. É disso que as distruibuições Linux precisam, ninguém é obrigado a aprender algo que não quer para poder usar a Internet ou digitar um trabalho de faculdade.

Concluindo: para o Linux ser mais popular, não se deve esperar que as pessoas vão até ele, ele tem de ir às pessoas. Como? Esse já é um outro assunto.


Três tipos de pessoas

Tira de quadrinho retirada do site Pagando o pato, do cartunista Joatan Preis Dutra:

3tipospessoasDeixando a comédia de lado, percebi que existem muitas pessoas que fazem parte da terceira categoria.


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