Arquivo do mês: abril 2008

O sensacionalismo

Assistindo nos telejornais a repercussão do caso Isabella Nardoni, tenho visto o despudor da população na ávida busca por informações. Muitas pessoas protagonizam cenas patéticas, como o caso do senhor que levou sua família para um “belo” programa de domingo: assistir à reconstituição do crime.

Filmes como “Faces da morte”, vídeos de assassinatos, suicídios e acidentes multiplicando-se pela internet, curiosos em volta de um acidente automobilístico — quanto mais grave o acidente, maior é o número de curiosos — são exemplos de como esse desejo é presente na sociedade contemporânea. Mas este sentimento não é novo para a humanidade.

As execuções públicas tinham a função de “educar” a população a não cometer crimes e eram assistidas por praticamente toda comunidade. E ninguém era obrigado a isso.

Sem falar quando a morte era motivo de entretenimento:

Coliseu

Minha pergunta: é natural do ser humano o anseio por imagens tão impactantes? E por que isto sempre esteve tão inerente ao ser humano no decorrer destes milênios? Segundo as teorias psicanalíticas, não temos controle sobre esse desejo. A psicanálise pode até explicar como acontece o processo do interesse por estes assuntos, mas não explica a origem. Se Freud tinha razão, eu não sei, mas é curioso observar a batalha entre o superego e o id — o consciente-repressor e o inconsciente — no que tange os assuntos sensacionalistas. Acredito que muitos já presenciaram cenas de pessoas horrorizadas com a cena de algum acidente, mas mesmo assim não deixavam de assistí-lo inúmeras vezes.

Mas por que diabos esse desejo habita o inconsciente?


“Cada um na sua, mas com nada em comum”

A frase do título foi dita por mim em uma conversa com uma amiga, que está na faixa dos vinte anos de idade, e é uma clara alusão ao famoso slogan “cada um na sua, mas com alguma coisa em comum” das propagandas do cigarro Free. Foi um slogan muito perpetuado entre as pessoas na década de noventa, e até início do ano dois mil. Minha amiga não entendeu a alusão, pois não se lembrava de tais propagandas. Isso me fez pensar que a geração próxima ou abaixo de um quarto de século não teve ciência, por completo, do período de banimento do cigarro dos meios publicitários. Ou pegou o bonde andando ou já com ele no ponto final. Em um intervalo de menos de dez anos o cigarro foi de total liberdade até o completo banimento; televisão, patrocínios a eventos ou mesmo a esportistas, tudo proibido.

Assistindo às propagandas percebia-se claramente o público-alvo dos produtos, seja analisando as imagens, a temática ou a trilha sonora, entre outros elementos. O cigarro Hollywood, por exemplo, era voltado a uma juventude inquieta, ligada aos esportes radicais, ao rock’n roll e com sede de viver. O Free, ao jovem buscando firmar sua independência e individualidade, culto e refinado. O Marlboro voltado ao público masculino, mostrando a combinação de poder, virilidade e liberdade. O Carlton já era voltado a um público mais refinado e adulto. A lista segue longa. Nem é preciso conferir os números para saber que as companhias de cigarro faturavam faturam muito, pois tais marcas tinham uma excelente assessoria de marketing — e isso custava custa bastante. Com tantos recursos, não foi por acaso que estas peças publicitárias eram uma das melhores produzidas, e tornaram-se célebres, seja o cowboy da Marlboro, seja o sandboard nas dunas da Namíbia de Hollywood.

Na época estes comerciais nada mais eram do que comerciais muito bem feitos. Mas quem teve oportunidade de assisti-los no intervalo de um filme ou de uma novela, e contrasta com o presente, acaba sendo possuído por um certo saudosismo. Acredito que isso se dá com qualquer tipo de um comercial que marca uma época — “não esqueça da minha Caloi”. Muita gente hoje solta um ou outro bordão, ou faz alguma referência proveniente dos comerciais de cigarro. Tudo bem, isto pode ser levado até a outros produtos: daqui a dez anos o bordão “quer pagar quanto?” nada vai significar para uma pessoa de vinte anos de idade, além do sentido literal de frase. Mas me refiro especialmente às propagandas de cigarros pois nestes comerciais os publicitários buscavam causar mais impacto, criando um imaginário e ambientes alheios ao produto anunciado, vendendo a idéia de que o cigarro poderia proporcionar a sensação vivida no comercial. Criaram, também, vários slogans de efeito, que, isolados, não tem relação alguma com o produto, mas alguns deles transformaram-se em quase um sinônimo da marca anunciada:

  • “Alguns homens fazem o que outros apenas sonham”, Marlboro;
  • “Existe um lugar onde o homem é dono do seu próprio destino”, Marlboro;
  • “Me ame ou me odeie. Mais ou menos é que incomoda. Cada um na sua”, Free.

Abaixo, uma série de frases de uma campanha publicitária do cigarro Free, veiculada em impressos, voltadas ao jovem, enfatizando a atitude — reparem nas idades entre vírgulas :

  • “Adriana Recki, 27 anos, agitadora cultural: Eu sou um animal absolutamente emocional”;
  • “Mega-OM, 26 anos, multimídia: Eu sou a minha própria invenção”;
  • “Lara Pinheiro, coreógrafa: A melhor parte da minha vida é o improviso”;
  • “Carolina Overmeer, 27 anos, diretora de arte: Ninguém muda nada se não acreditar que pode”;
  • “Daniel Zanardi, 27 anos, artista plástico: Não quero passar pela vida sem um arranhão. Quero deixar minha marca”.

Abaixo há uma propaganda veiculada pelo Free, que exemplifica muito bem a questão.

E logo mais um vídeo com um comercial de Hollywood dos anos oitenta.

Aqui o protagonista é um carro de corrida extremo, e aqui é um grupo de jovens descendo uma montanha nevada com snow mobiles.

Referências e mais informações

Alguns links para vídeos e propagandas de cigarros

Artigo com um breve histórico das campanhas publicitárias de cigarros

A indústria do cigarro e a publicidade


MP3, liberdade da informação e arte interativa

Da série “Textos que comecei a escrever há alguns meses mas só agora tive saco para terminar”.

Li no blog de Gilberto Jr. um post em que ele comenta o sucesso do filme “Tropa de elite”, e como a pirataria ajudou nesse sucesso. Não sei se o filme teve comerciais com o trailer dele na televisão, como a maioria dos filmes, mas, pelo acompanhei, não precisava. A pirataria foi a melhor forma de divulgação que o filme poderia ter tido, pois, além de colocar o filme na “boca do povo”, levou-o a ser notícia em muitos meios de comunicação, possibilitanto a muitas pessoas conhecerem o filme.

Acho fantástica a interatividade e a cooperatividade que a Internet proporciona. Mas esta é uma questão complicada. Se por um lado sou a favor da liberdade da informação, por outro lado há pessoas que abdicam de um trabalho formal e dedicam esforço, tempo e, alguns, dinheiro em cima de um projeto com a finalidade de ter uma renda em cima daquilo, e, no final, esse trabalho acaba sendo distribuído livremente… nunca soube de alguém que tenha falido por causa da pirataria, no entanto, não é justificativa. Alguns praticam a pirataria como filosofia: é a liberdade da informação — neste caso o termo “pirataria” soa pejorativo —, mas a maioria a pratica calcada na Lei de Gérson. Talvez isso seduza as pessoas, sei lá. Por outro lado, a pirataria acaba se tornando um meio de divulgação do trabalho de um artista. Usando um exemplo pessoal, foi o que aconteceu comigo e a banda Morphine, em 2003. Após baixar algumas músicas, resolvi comprar todos os álbuns da banda. Além disso, quando meu carro foi arrombado, levaram-me um dos CDs da banda. Comprei-o novamente.

Mas não dá para discutir liberdade de informação sem discutir o próprio conceito de propriedade, e o que esse conceito engloba. Discutindo-se isso pode-se definir o que é pirataria e o que é informação livremente distribuída. Essa discussão toda ocorre porque nosso modelo econômico não suporta algo do tipo “ter” sem pagar. É, até certo ponto, um anacronismo dentro do capitalismo, pois é um modelo centrado — em linhas gerais, ressalvadas as especificidades — na propriedade privada e no capital. Mas quando o conceito de propriedade chega a itens imateriais, como definir o que é propriedade? Quando se compra um CD de música está se pagando pela mídia ou pelo conteúdo dela? As ondas sonoras contidas naquele material podem ser consideradas propriedade de alguém? Ou é a manipulação das ondas sonoras que são propriedade? Ou, ainda, paga-se pelo trabalho que aquele artista teve em manipular o som da maneira que fez, ou seja, a mão de obra? Se assim for, quando se copia a música sem pagar, não se está infringindo muito mais as leis trabalhistas do que qualquer outro dispositivo de afronta à propriedade?

Claro que, para fins didáticos, ignorei propositadamente o conceito de propriedade intelectual, algo que parece ser natural — se fulano teve a idéia, ela é dele. Mas, se for se pensar a fundo, o termo “idéia”, ou a elaboração de uma idéia, é algo passível de ser posse de alguém?

O fenômeno das músicas no formato mp3 e músicas online não significa apenas que achamos o CD caro demais, mas, também, demonstra que estamos nos cansando do formato atual de distribuição. Não é à toa que a iTunes Store faz tanto sucesso. Em 1999 a banda Public Enemycaso do disponibilizou um álbum para venda online, e acredito que a tendência seja essa, com exemplos cada vez mais “vanguardistas”, como o Radiohead, em 2007. O músico Beck foi outro que procurou inovar neste sentido, lançando o álbum semi-interativo The information. A começar pela capa, que vem em branco e, com os adesivos que acompanham o CD, cada ouvinte pode fazer a sua própria art cover. Na página de vendas do álbum no site da Amazon há disponíveis várias art covers, feitas por quem o comprou — a loja criou um espaço especialmente para isto. Achei a idéia da montagem da capa fantástica, pois cada capa conterá, consciente ou inconscientemente, reflexos de como a música afetou cada ouvinte, logo, não haverá dois álbuns com a mesma arte na capa. E, no que toca às músicas, segundo um artigo do portal G1, elas foram gravadas de uma maneira que permite ao ouvinte remixá-las — desde que tenha conhecimento em softwares de edição de som, lógico — como ocorreu com as do álbum anterior a esse, Guero. Segundo o mesmo artigo, o próprio Beck incentiva estes remixes por parte dos ouvintes.

O cinema é uma arte que pode comportar muito bem esta tendência. Com os hardwares de computador cada vez mais acessíveis, quem sabe num futuro próximo o espectador possa remontar o filme, editá-lo da maneira que achar melhor. Esta tendência de interatividade do público com a arte não é recente. Se não me engano, é uma tendência que surge com a arte pós-moderna, na década de sessenta. Na época do lançamento do filme “A idade da terra”, em 1980, Glauber Rocha dizia que seu filme poderia ser exibido com os rolos projetados em ordem aleatória (cada rolo de filme tem uma duração de cerca de quinze minutos), e ainda assim o filme faria sentido. O que é isto senão uma remontagem do filme? A idéia pode não ser atual, mas hoje está muito mais próxima do apreciador consumidor de arte. No caso do cinema, a remontagem, hoje, já pode ser feita por qualquer pessoa que tenha um computador com um hardware mínimo e o DVD do filme. Ou seja, recurso técnico já há.

Nesse sentido a liberdade de informação e a interatividade na arte andam de mãos dadas, pois quanto mais a informação for livre, maior será a possibilidade de interatividade com o público, transformando a obra de arte, que deixará de ser expressão individual para ser expressão coletiva. A grosso modo, é a arte open source. :-P


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