Arquivo do mês: junho 2008

Da superstição

Superstição: do latim superstitione.

  1. sentimento religioso errôneo que induz a criar falsas obrigações e que leva à prática de deveres absurdos ou imaginários;
  2. excessiva credulidade;
  3. crendice;
  4. preconceito. [Fonte]

[Quase] Todo mundo tem um ritual secreto, miraculoso, que faz as coisas darem certo, não é verdade? A cueca, calça ou blusa que dava sorte com as meninas, aquela caneta que fazia tirar notas altas em todas as provas na escola, uma música ouvida antes de um momento decisivo cujo resultado foi favorável, assistir a um jogo inteiro em final de campeonato de pé, o jogador que pisa com o pé direito ao entrar no gramado; enfim, cada um com seu. Eu tinha alguns quando assistia aos jogos do Flamengo — principalmente jogos de final — e hoje, assistindo ao jogo contra o Sport, que estava empatado, me dei conta que os estava repetindo. O Flamengo fez um gol. 2 x 1. E tenho uma caneta que me acompanha nos concursos públicos!

dolar-na-cueca

“Não te disse pra usar a cueca da sorte?”

O engraçado é que é preciso apenas um resultado favorável, de preferência quando o ritual é criado, para que vire ritual da sorte. E não importa quantas vezes ele é praticado sem dar o resultado almejado, sempre inventamos uma desculpa. Não foi realizado em sua plenitude, a posição não estava correta, a cueca calça blusa roupa não foi lavada adequadamente, o pé esquerdo estava muito perto do gramado antes do direito, ou a caneta sabe qual cargo público é bom para você mim e qual não é, etc. E assim inventamos nossas desculpas para achar que há, de fato, uma certa sobrenaturalidade em nossos rituais.

Talvez essa crença nos dê um certo conforto diante dos eventos nos quais o resultado não compita a nós, tirando um pouco da ansiedade que nos afeta nestes momentos. Eu me considero uma pessoa racional, procuro explicações plausíveis para as coisas que acontecem e que, aparentemente, não têm explicação. E sei que um ritual destes, que apele para a sorte, não vai mudar o curso do destino. Mas… não custa tentar…


Indiana Jones, Casino Royale e A intérprete

Final de semana cheio, finalmente fiz algo que costumava fazer há muito tempo e que estava com saudade, assistir a vários filmes, um atrás do outro. Entre filmes já vistos, inéditos, lançamentos, bons filmes e bombas, três filmes se destacaram para mim.

Indiana JonesO primeiro — em ordem de destaque — foi “Indiana Jones e reino da caveira de cristal”. Estava um pouco ansioso para vê-lo, mas não esperava muito dele, apenas um filme divertido na saga do famoso “arqueólogo”. Longe da imagem do arqueólogo prostrado com a bunda para cima sob o sol, escavando a areia com um pincel de meia polegada para encontrar cacos de cerâmica.

O filme é bem divertido, e quem esperava algo mais do que entretenimento puro e simples deve ter ficado desapontado. O início do filme me lembrou os filmes de espionagem da guerra fria, e tem uma atmosfera similar a de “Indiana Jones e a última cruzada”; além de uma vilã com características peculiares, típico de tais filmes.

Não pude deixar de rir da referência ao arqueólogo Gordon Childe, um dos mais conceituados estudiosos da pré-história, num momento não usual. E há outra referência indireta ao mesmo arqueólogo, quando Jones cita as escavações à ilha de Skara Brae (que também é uma ilha nos jogos da série Ultima), pois Childe participou de uma escavação realizada nesta ilha. O filme se passa em 1957, ano em que Gordon Childe morreu. Pura curiosidade.

O que pode ter decepcionado alguns é que é um filme despretensioso, não tenta ser uma daquelas seqüências que pretendem resgatar o herói e colocá-lo num pedestal. Os elementos novos inseridos foram, a meu ver, bem explorados a ponto de não ficarem saturados. Há cenas bobas, claro, mas, nesse caso, servem para divertir ainda mais. Apesar da música tema ser usada como base para algumas trilhas de fundo, ela não fica enfadonha. E um erro muito comum em seqüências do tipo é saturar a imagem do herói ou de algum elemento característico do filme, querendo dar relevância maior do que realmente há. E não tive a impressão de ocorrer isto nesse filme.

* * *

Às vésperas do lançamento do próximo filme do espião double O seven, previsto para este ano, acabei assistindo, por acaso, ao último filme da franquia, “Casino Royale”. Nunca consegui assistir a um James Bond do início ao fim, sempre os achei muito chatos. Já Casino Royale me prendeu do início ao fim. Achei um bom filme e Daniel Craig ficou muito bem caracterizado como Mr. Bond. O Pierce Brosnan me pareceu meio insosso. Depois dessa pretendo dar uma nova chance aos outros filmes da franquia, inclusive os com o Sean Connery e Roger Moore.

Casino Royale '67Oops, filme errado.

* * *

No molde dos filmes de inteligência e ação, “A intérprete” é um filme bem feito, que não se apóia completamente na ação e que aposta nas reviravoltas do roteiro que sempre levam o espectador para um caminho diferente, até mesmo nos minutos finais do filme. Uma trama bem armada e que também prende a atenção. É muito bom poder terminar de assistir a um filme sem ficar com aquele sentimento de tempo perdido no final.

Um paralelo entre os três filmes é que eles tem espionagem no meio.

Au revoir.


16 por 10

Dia desses medi minha pressão sanguínea arterial e levei um susto: 16 por 10 (ou 160-e-uns-quebrados/90 mmHg).

Noutro, numa lanchonete fast-food de sanduíches, comendo um sanduíche com hambúrguer de picanha, pego a caixinha dele e leio as informações nutricionais até chegar em:

  • Sódio – 2.713mg113% das necessidades diárias de uma dieta de 2.000KCal.

Sem contar a batatinha.

Foi então que me lembrei de Super Size Me.


Apocalypto e o fim da civilização maia

Mel Gibson mostra novamente como consegue o que quer em Hollywood. Depois de filmar “A paixão de Cristo” em aramaico, língua praticamente morta, ele filma “Apocalypto” utilizando o idioma falado pelos povos maias hoje em dia. O contexto histórico, aparentemente, não é o elemento principal do filme, pois a história principal é mais ou menos universal, que poderia se passar em qualquer época e em qualquer local, fazendo-se as adaptações necessárias.

O mais famoso Maia

O mais notável Maia

No entanto, a utilização de tal contexto é o que torna o filme interessante, pois ao narrar esta história universal, narra, também, o final da civilização maia; as guerras frequentes entre tribos e cidades estado; o desespero dos líderes para colheitas prósperas, através da cena dos sacrifícios seriais e a pilha de corpos, sugerindo que os sacrifícios eram numerosos; a edificação de mais construções, utilizando recursos que poderiam ser gastos em algo mais produtivo à civilização. Enfim, narra os últimos suspiros de uma civilização. A chegada das caravelas ao final do filme apenas conclui este ciclo, pois, com a conquista espanhola, a civilização maia, que já estava sob domínio asteca no século XVI, recebe seu ultimato.

A utilização da frase de autoria do historiador Will Durant no início do filme (“Uma grande civilização não pode ser conquistada por fora, antes de se destruir por dentro”) serve para ilustrar o parágrafo anterior, de que a civilização maia, antes de ser conquistada pelos espanhóis, já estava em declínio devido a estes fatores internos. É importante ressaltar que esta civilização entrou em decadência desde o final do século IX, quando ficou sob influência tolteca, e posteriormente sob influência asteca.

O filme recebeu críticas por mostrar uma civilização já decadente no século IX ainda “viva” no século XVI. Porém, não foi mero descuido, mas proposital. Percebo isso na cena do sacrifício, pois, a meu ver, a cena do sacrifício segue à risca as descrições de sacrifício praticada pelos astecas. E no século XVI, como já visto, a civilização maia estava sob influência asteca.

Sacrifício humano dos astecas

Sacrifício humano dos astecas

Outra crítica recebida pelo filme foi de mostrar os maias como um povo bárbaro e sanguinolento. A esta altura a patrulha de plantão esquece de mencionar o início do filme, quando a comunidade vivia em harmonia consigo e com a natureza; de que o filme segue o ponto de vista de um indivíduo capturado em uma batalha, logo, as cenas mostradas são relacionadas a isto; e também esquece de que o filme sugere que o eclipse já era conhecido do alto escalão, que trocava olhares de complicidade, enquanto a população foi privada desse conhecimento. A civilização maia é conhecida por ter tido um avançado conhecimento astronômico, mas é lógico que este conhecimento ficava retido na elite. A crítica, a meu entender, é baseada apenas no fato do diretor ser um conservador declarado. Caso fosse um filme dirigido por um diretor reconhecidamente progressista, ou, ainda, por um latino, estas críticas ou não existiriam ou seriam relativizadas. Ou queriam que o filme mostrasse os maias em traje de gala bebendo o chá das cinco?

É interessante observar como a escolha do idioma nos faz mergulhar muito mais facilmente naquele mundo, junto com os outros elementos — ambientação, figurino, etc — e, ao mesmo tempo, distancia-nos historicamente dele, como se tivesse sido filmado na época.

Portanto, o que inicialmente parecia ser segundo plano — o contexto histórico — é trazido para o primeiro plano, e o conflito do personagem principal fica apenas como uma desculpa para o diretor poder tratar desde contexto histórico, mas sob o ponto de vista do personagem. É um bom filme para estudantes de cinema e crítica entenderem que ao analisar um filme você não pode se ater apenas às técnicas de cinema, mas precisa se preocupar em ver, além dos subtextos, o contexto em que o filme foi feito.

Historiadores e professor universitários também podem utilizar o filme para, além de fazer uma discussão sobre as civilizações americanas e a conquista espanhola, discutir como utilizar o cinema na sala de aula, discutindo os acertos e erros do diretor acerca do contexto histórico.

Os anacronismos presentes no filme talvez sejam mais questões de Antropologia que de História, pois achei a reconstituição histórica bem verossímil, como as pinturas dos deuses ou as cabeças empaladas. No caso dos anacronismos, seriam mais questões como o de levar conceitos de comportamento da sociedade atual para a sociedade da época.


“A queda”: Hitler não era um robô

Bruno Ganz como Hitler

Bruno Ganz como Hitler

Virou lugar-comum sempre que se falar em nazismo, fascismo, Hitler ou qualquer outro regime totalitário ou líder totalitário, criticar, de preferência com diversos adjetivos pejorativos, tais movimentos. E os patrulheiros de plantão estão aí para garantir que isso ocorra. É claro que não se quer que eventos como os que ocorreram na segunda guerra mundial se repitam, mas muitas vezes as críticas ao regime parecem mecânicas, e, assim sendo, desprovidas de conteúdo. Vazias. O lobby anti-Hitler desde o final da segunda guerra até hoje é tão intenso que muitas pessoas não se sentem à vontade quando vêem alguma imagem dele, ou os termos usados para adjetivá-lo são “monstro”, “desprezível” entre outros. Mas Hitler não foi muito diferente do qualquer outro líder totalitário. Nem pior, nem melhor.

Normalmente há bastante resistência, sobretudo por parte dos vencedores, às tentativas de mostrar o ponto de vista dos vencidos, pois há um ditado famoso que diz que “a História é contada pelos vencedores”. Foi o que ocorreu a partir do lançamento do filme “A queda: as últimas horas de Hitler”, em 2004. Houve uma série de críticas ao filme, ou por “humanizar” a figura do ditador, ou por tentar mostrar o regime nazista como vítima, ou, ainda, por tentar passar a idéia de um “nazismo light”. [mais informações].

Não vi nada disso no filme.

Ele humaniza, sim, o ditador. Mas não do jeito como normalmente se caracteriza uma pessoa como humana: dotada de sentimentos nobres. Mas como um ser humano que pode ser vil, empedernido, cruél e dócil ao mesmo tempo, o filme humaniza o ditador neste sentido. Mas como o cinema — ou aquelas que fazem cinema — tende a ser maniqueísta — o que é bom vira excessivamente bom, e o mal excessivamente mal — é natural que surjam críticas quando um “vilão” da vida real é dotado não apenas de sentimentos rancorosos. O filme mostra um Hitler que tem a capacidade de amar e de ser dócil com os outros, mas, ao mesmo tempo, mostra os delírios do líder nos momentos finais, como também mostra sua crueldade e seu rancor para com os judeus. Ou seja, o filme humaniza sim a figura do ditador, mas jamais absolvendo-o ou tentando criar empatia com ele.

Se o regime nazista chegou nesse ponto foi com o apoio da população. Os judeus estavam crescendo economicamente na Alemanha, o que levou muitos acreditarem que a causa da economia estar em níveis tão ruins fossem os judeus. Isto, aliado com os ressentimentos da primeira guerra mundial, criou um ambiente promissor ao desenvolvimento de um regime totalitário e nacionalista, com apoio popular. Os estrangeiros e etnias consideradas inferiores foram perseguidas: judeus, ciganos, eslavos, comunistas, etc.

O filme dá umas pinceladas sobre isto, mostrando uma característica presente nos movimentos fascistas, nos quais os líderes são tidos como infalíveis, criando, assim, uma idolatria do povo para com eles. Uma característica típica do absolutismo. Um dos pontos mais importantes do filme para mim é quando mostra a demagogia do líder, que, por orgulho e narcisismo, prefere a morte à rendição, e assim abandona — suicidando — aqueles que o apoiaram, que o levaram ao poder e legitimaram suas ações, diante da derrota iminente.

Ou seja, o filme só sugere um “nazismo light” para aquelas que o vêem com olhos tortos e de maneira superficial, sem perceber suas nuances. Pena que o ator Bruno Ganz, interpréte do füher no filme, não levou prêmio algum por sua atuação, pois ele esteve magnífico.

Ficha técnica


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