“Uma visão imparcial e equilibrada da direita” é o título de um livro escrito pelo (ex?) comediante e senador americano Al Franken, publicado em 2003 lá (Lies and the Lying Liars Who Tell Them – A Fair and Balanced Look at the Right) e em 2004 aqui. O “fair and balanced” é o slogan do canal Fox News, utilizado no título, obviamente, como forma de ironia. Um dos pontos que mais me impressionou (além do fato, que eu já sabia e o livro confirmou, de a imprensa de direita americana ser altamente hipócrita e sacana, ou de como a direita americana é assustadoramente conservadora) foi perceber como a liberdade de expressão, princípio contido na primeira emenda da Constituição americana, nos Estados Unidos é levada a sério.
O congresso não deve fazer leis a respeito de se estabelecer uma religião, ou proibir o seu livre exercício; ou diminuir a liberdade de expressão, ou da imprensa; ou sobre o direito das pessoas de se reunirem pacificamente, e de fazerem pedidos ao governo para que sejam feitas reparações por ofensas. (Texto da primeira emenda da Constituição dos Estados Unidos, grifos meus)
Além das fortes críticas à imprensa conservadora (e de direita) e à própria direita americana, Al Franken frequentemente ridiculariza e debocha de figuras desta imprensa (como Bill O’Reilly, apresentador do The O’Reilly Factor, da “emissora de direita” Fox News) revelando uma série de mentiras publicadas e muitas vezes mostrando como estas mentiras foram fabricadas. Quando não é uma “simples” mentira, na maior cara de pau. Chama-os de mentirosos sem cerimônias.
Apesar disso, não se vêem processos sendo acatados pelos juízes, no considerado país dos processos (apesar da “primeira emenda” permitir a solicitação de reparações por ofensas), como o de Jorge Bornhausen contra Emir Sader. Aliás, a Fox até tentou processar Al Franken e impedir a circulação do livro, mas pelo motivo de utilização do slogan “fair and balanced”, mas o juiz considerou a causa totalmente sem mérito. Diferentemente do Brasil, onde é comum que livros sejam retirados de circulação (seja pela justiça, seja pelas editoras que desistem de um lançamento), como o da biografia não autorizada de Roberto Carlos, de autoria de Paulo César Araújo; um perfil de Manuel Bandeira, por Paulo Polzonoff e o livro “Morcegos Negros: PC Farias, Collor, máfias e a história que o Brasil não conheceu”, em que o autor e a editora, Lucas Figueiredo e Record, foram condenados a pagar cerca de R$ 200.000,00 a um juiz do Tribunal de Justiça de Alagoas, que se sentiu difamado pois o autor comentou que ele “só reclamava” (em relação ao caso do assassinato de PC Farias).
IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
V – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem; (incisos IV e V do Artigo 5º da Constituição do Brasil, grifos meus)
O caso Jorge Borhausen x Emir Sader pode ser tratado como uma aplicação da própria constituição, que dá razão ao direito de resposta e indenização, embora, já que estou comparando com os Estados Unidos, este tipo de processo não seja tão frequente lá, pois a questão da difamação precisa ser contundente. Já a questão dos livros proibidos, não sei se é uma herança da ditadura ou se apenas um entendimento mais, muito mais, restrito do que seja a liberdade de expressão.
Para exemplificar a questão, abaixo cito um trecho do texto que fez Emir Sader ter sido processado e logo mais um trecho do livro de Al Franken, com meus comentários entre colchetes.
O senador Jorge Bornhausen é das pessoas mais repulsivas da burguesia brasileira. Banqueiro, direitista, adepto das ditaduras militares, do governo Collor, do governo FHC, do governo Bush, revela agora todo o seu racismo e seu ódio ao povo brasileiro com essa frase, que saiu do fundo da sua alma – recheada de lucros bancários e ressentimentos. [A frase em questão é “A gente vai se ver livre desta raça, por, pelo menos, 30 anos” o termo “raça” referia-se, se não me engano, à esquerda] […]
Mas não se engane, senhor Bornhausen, banqueiro e racista, muito antes do que sua mente suja imagina, a esquerda, o movimento popular, o povo estarão nas ruas, lutarão de novo por uma hegemonia democrática, anti-racista, popular, no Brasil. […]
Não, senhor Bornhausen, nosso ódio a pessoas abjetas como a sua, não os deixará livre de novo para governar o Brasil como sempre fizeram – roubando, explorando, assassinando trabalhadores. (texto completo: link)
Agora vamos ao trecho do livro de Al Franken:
As várias mentiras e distorções de O’Reilly alimentam uma grande mentira: a de que ele é uma pessoa da classe operária, franca e sem enrolação, que despreza os embusteiros e defende o homem simples. Eu não acredito nisso.
Na verdade, O’Reilly é tão falso quanto seus Peabodys [o prêmio mais prestigioso de jornalismo, que, segundo Franken, O’Reilly mentiu ao dizer que um programa de que participava ganhou duas vezes]. Sob o disfarce de sua personalidade de homem comum irritado [alô Prates?] ele usa um velho inventário de táticas rudes, prepotentes e depreciativas – para apresentar uma agenda conservadora mal disfarçada. […]
Mas sua constante afirmação de que é um observador imparcial e não um observador ideológico é apenas mais uma mentira. E é mais uma mentira sobre a qual ele teve de mentir. [p. 83]
Sem mencionar que um dos livros anteriores de Al Franken foi intitulado como Rush Limbaugh is a Big Fat Idiot and Others Observations (Rush Limbaugh é um gordo grande e idiota e outras observações).
Outro ponto que destaco é o fato de alguns veículos de comunicação de grande porte nos Estados Unidos assumirem claramente um posicionamento político-ideológico (de direita), ao contrário do Brasil, em que, salvo algumas exceções (a revista Veja e o Estadão, por exemplo) tentam não deixar claro seu posicionamento (de direita). Esta, talvez, seja outra herança da ditadura: é que pega meio mal no Brasil se assumir de direita, pois ela é, através da “velha direita” (representada por DEM e PP), ainda hoje, muito associada à ditadura. O velho embate “capitalismo x socialismo” parece ter morrido no Brasil. Hoje vemos duas faces do capitalismo, uma conservadora e a outra moderada. O Brasil, ao que parece, segue um rumo parecido com o dos Estados Unidos: dois grandes partidos que se alternam no poder, com uma diferença gritante: no meio desta briga existe o PMDB, o maior partido do Brasil, exercendo grande influência na política nacional.
Recomendo a leitura de “Mentiras” a quem tenha um pouco de conhecimento sobre a política americana, apesar da edição brasileira trazer, entre colchetes, no próprio texto do livro, explicações sobre pessoas e fatos que não sejam tão conhecidos dos brasileiros, o que faz a leitura fluir, sem a necessidade de ir e voltar os olhos para notas de rodapé. Apesar do tom duro Al Franken não deixa o humor de lado, e sua fina, e muitas vezes não tão fina, ironia arrancaram muitas gargalhadas e risadas durante a leitura
Ao final fica aquela vontadezinha de fazer uma versão brasileira, enfocando algumas figuras conservadoras e de direita da mídia e suas falácias. Olavo de Carvalho, Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Luiz Carlos Prates e outros.
Franken, Al. Mentiras e os grandes mentirosos que as contam: uma visão imparcial e equilibrada da direita. Editora Francis, 2004.