Arquivo do mês: janeiro 2010

“Mentiras e os grandes mentirosos que as contam”

“Uma visão imparcial e equilibrada da direita” é o título de um livro escrito pelo (ex?) comediante e senador americano Al Franken, publicado em 2003 lá (Lies and the Lying Liars Who Tell Them – A Fair and Balanced Look at the Right) e em 2004 aqui. O “fair and balanced” é o slogan do canal Fox News, utilizado no título, obviamente, como forma de ironia. Um dos pontos que mais me impressionou (além do fato, que eu já sabia e o livro confirmou, de a imprensa de direita americana ser altamente hipócrita e sacana, ou de como a direita americana é assustadoramente conservadora) foi perceber como a liberdade de expressão, princípio contido na primeira emenda da Constituição americana, nos Estados Unidos é levada a sério.

O congresso não deve fazer leis a respeito de se estabelecer uma religião, ou proibir o seu livre exercício; ou diminuir a liberdade de expressão, ou da imprensa; ou sobre o direito das pessoas de se reunirem pacificamente, e de fazerem pedidos ao governo para que sejam feitas reparações por ofensas. (Texto da primeira emenda da Constituição dos Estados Unidos, grifos meus)

Além das fortes críticas à imprensa conservadora (e de direita) e à própria direita americana, Al Franken frequentemente ridiculariza e debocha de figuras desta imprensa (como Bill O’Reilly, apresentador do The O’Reilly Factor, da “emissora de direita” Fox News) revelando uma série de mentiras publicadas e muitas vezes mostrando como estas mentiras foram fabricadas. Quando não é uma “simples” mentira, na maior cara de pau. Chama-os de mentirosos sem cerimônias.

Apesar disso, não se vêem processos sendo acatados pelos juízes, no considerado país dos processos (apesar da “primeira emenda” permitir a solicitação de reparações por ofensas), como o de Jorge Bornhausen contra Emir Sader. Aliás, a Fox até tentou processar Al Franken e impedir a circulação do livro, mas pelo motivo de utilização do slogan “fair and balanced”, mas o juiz considerou a causa totalmente sem mérito. Diferentemente do Brasil, onde é comum que livros sejam retirados de circulação (seja pela justiça, seja pelas editoras que desistem de um lançamento), como o da biografia não autorizada de Roberto Carlos, de autoria de Paulo César Araújo; um perfil de Manuel Bandeira, por Paulo Polzonoff e o livro “Morcegos Negros: PC Farias, Collor, máfias e a história que o Brasil não conheceu”, em que o autor e a editora, Lucas Figueiredo e Record, foram condenados a pagar cerca de R$ 200.000,00 a um juiz do Tribunal de Justiça de Alagoas, que se sentiu difamado pois o autor comentou que ele “só reclamava” (em relação ao caso do assassinato de PC Farias).

IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;

V – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem; (incisos IV e V do Artigo 5º da Constituição do Brasil, grifos meus)

O caso Jorge Borhausen x Emir Sader pode ser tratado como uma aplicação da própria constituição, que dá razão ao direito de resposta e indenização, embora, já que estou comparando com os Estados Unidos, este tipo de processo não seja tão frequente lá, pois a questão da difamação precisa ser contundente. Já a questão dos livros proibidos, não sei se é uma herança da ditadura ou se apenas um entendimento mais, muito mais, restrito do que seja a liberdade de expressão.

Para exemplificar a questão, abaixo cito um trecho do texto que fez Emir Sader ter sido processado e logo mais um trecho do livro de Al Franken, com meus comentários entre colchetes.

O senador Jorge Bornhausen é das pessoas mais repulsivas da burguesia brasileira. Banqueiro, direitista, adepto das ditaduras militares, do governo Collor, do governo FHC, do governo Bush, revela agora todo o seu racismo e seu ódio ao povo brasileiro com essa frase, que saiu do fundo da sua alma – recheada de lucros bancários e ressentimentos. [A frase em questão é “A gente vai se ver livre desta raça, por, pelo menos, 30 anos” o termo “raça” referia-se, se não me engano, à esquerda] […]

Mas não se engane, senhor Bornhausen, banqueiro e racista, muito antes do que sua mente suja imagina, a esquerda, o movimento popular, o povo estarão nas ruas, lutarão de novo por uma hegemonia democrática, anti-racista, popular, no Brasil. […]

Não, senhor Bornhausen, nosso ódio a pessoas abjetas como a sua, não os deixará livre de novo para governar o Brasil como sempre fizeram – roubando, explorando, assassinando trabalhadores. (texto completo: link)

Agora vamos ao trecho do livro de Al Franken:

As várias mentiras e distorções de O’Reilly alimentam uma grande mentira: a de que ele é uma pessoa da classe operária, franca e sem enrolação, que despreza os embusteiros e defende o homem simples. Eu não acredito nisso.

Na verdade, O’Reilly é tão falso quanto seus Peabodys [o prêmio mais prestigioso de jornalismo, que, segundo Franken, O’Reilly mentiu ao dizer que um programa de que participava ganhou duas vezes]. Sob o disfarce de sua personalidade de homem comum irritado [alô Prates?] ele usa um velho inventário de táticas rudes, prepotentes e depreciativas – para apresentar uma agenda conservadora mal disfarçada. […]

Mas sua constante afirmação de que é um observador imparcial e não um observador ideológico é apenas mais uma mentira. E é mais uma mentira sobre a qual ele teve de mentir. [p. 83]

Sem mencionar que um dos livros anteriores de Al Franken foi intitulado como Rush Limbaugh is a Big Fat Idiot and Others Observations (Rush Limbaugh é um gordo grande e idiota e outras observações).

Outro ponto que destaco é o fato de alguns veículos de comunicação de grande porte nos Estados Unidos assumirem claramente um posicionamento político-ideológico (de direita), ao contrário do Brasil, em que, salvo algumas exceções (a revista Veja e o Estadão, por exemplo) tentam não deixar claro seu posicionamento (de direita). Esta, talvez, seja outra herança da ditadura: é que pega meio mal no Brasil se assumir de direita, pois ela é, através da “velha direita” (representada por DEM e PP), ainda hoje, muito associada à ditadura. O velho embate “capitalismo x socialismo” parece ter morrido no Brasil. Hoje vemos duas faces do capitalismo, uma conservadora e a outra moderada. O Brasil, ao que parece, segue um rumo parecido com o dos Estados Unidos: dois grandes partidos que se alternam no poder, com uma diferença gritante: no meio desta briga existe o PMDB, o maior partido do Brasil, exercendo grande influência na política nacional.

Recomendo a leitura de “Mentiras” a quem tenha um pouco de conhecimento sobre a política americana, apesar da edição brasileira trazer, entre colchetes, no próprio texto do livro, explicações sobre pessoas e fatos que não sejam tão conhecidos dos brasileiros, o que faz a leitura fluir, sem a necessidade de ir e voltar os olhos para notas de rodapé. Apesar do tom duro Al Franken não deixa o humor de lado, e sua fina, e muitas vezes não tão fina, ironia arrancaram muitas gargalhadas e risadas durante a leitura

Ao final fica aquela vontadezinha de fazer uma versão brasileira, enfocando algumas figuras conservadoras e de direita da mídia e suas falácias. Olavo de Carvalho, Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Luiz Carlos Prates e outros.

Franken, Al. Mentiras e os grandes mentirosos que as contam: uma visão imparcial e equilibrada da direita. Editora Francis, 2004.


O que você faria se só lhe restasse um dia?

Re-assistindo ao filme “Impacto profundo” e prestando atenção ao comportamento das pessoas diante da acachapante constação do fim do mundo, pensei que apesar de muita gente dizer que faria “x” ou “y” caso descobrisse que só restasse mais um dia de vida, seria difícil que estas coisas fossem, de fato, realizadas – digo as mais radicais, aquelas em que não há volta. Penso isso porque as pessoas, no fundo, diante das maiores tragédias, sempre têm esperança de que algo vai acontecer para reverter a situação: no fim tudo dará certo e o mundo não vai acabar.


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