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História de um amor invisível

O vento no rosto, sentado na escadaria sentia-o queimar a pele. Um típico vento de inverno, tão frio que caçoava de qualquer peça de roupa que ousava tentar quebrá-lo. Algumas gotas perdidas de chuva insistiam em cair das carregadas nuvens quilômetros acima, e, ao tocar a pele, impelidas pelo vento, davam a sensação de pequenos grãos de areia tão sensíveis que se dissipavam à medida que a encontravam.

A demora não o incomodava, já que ela não se submetia aos caprichos do relógio e somente apareceria quando lhe conviesse. Sempre carrega consigo uma revista ou livro, no caso de se deparar com situações como esta. A leitura o acalma e, neste caso específico, sua ansiedade alcançava níveis nunca antes experimentados. Abre a revista e passa os olhos por algumas crônicas e ensaios de autores bastante ou nada renomados, artigos sobre o aquecimento global e os grandes temas do momento. Seus olhos passeiam procurando por alguma palavra que os capture, mas, neste momento, palavra alguma é suficientemente interessante, desta vez a leitura estranhamente causa o efeito oposto do esperado.

Ele se levanta e desce alguns degraus da escada até atingir o largo, caminha em direção aos cafés do outro lado da rua, “quem sabe este seja um dia ao contrário”, pensa, “e uma boa xícara de café, ao invés de excitar-me, acalmar-me-á”. Senta-se em uma mesa no primeiro café logo que se cruza a rua, pede um espresso e acendo um cigarro – alguns clichês merecem ser perpetuados. Entre uma tragada e um gole do café, o vento frio faz com que a fumaça rapidamente se espalhe e se desfaça.

Acomoda-se na cadeira, preocupado com a câmera invisível que o focaliza, solta a fumaça vagarosamente dos pulmões em uma expressão aparentemente indiferente. Aparência. Disfarçadamente olha para o lado, em direção ao largo e à praça, seus olhos a procuram avidamente, mesmo já sabendo que não a verá, pois não serão seus olhos que o avisarão de sua chegada, mas um sentido muito mais complexo e inexplicável. Assim que ela chegar ele simplesmente tomará conhecimento e saberá exatamente para onde olhar e caminhar ao seu encontro.

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Do hábito de usar óculos

Quem usa óculos há muito tempo acaba se acostumando às limitações que uma vida dependente deste aparato traz. Pior ainda se não há a possibilidade do uso de lentes de contato ou quando tal opção é onerosa. As dificuldades se sobressaem nos detalhes: acordar e procurar os óculos para enxergar 100% (ou quase), assistir à televisão deitado no sofá com as malditas hastes incomodando, ter que limpá-los constantemente, ir à praia e se preocupar em deixá-los com alguém para mergulhar, jogar futebol, surfar ou qualquer outro esporte aquático ou de contato (esses último já nem tanto detalhe). Além do visual, os óculos, se mal escolhidos, acabam sendo um chamativo nada agradável para quem os usa. Quem os escolhe precisa levar em conta vários aspectos, já que são poucas as pessoas que tem a possibilidade (e paciência) de possuir vários, trocando de modelo dependendo da ocasião ou da vontade.

Comecei a usar óculos aos cinco anos de idade, sendo o momento crucial, vasculhando minha memória, quando, brincando em casa, de boa, olho para o meu quarto e vejo um bicho estranho, saio correndo e gritando “mãe, tem um bicho estranho lá no quarto, parece um elefante pequeno” minha mãe achou estranho e foi conferir: uma folha de árvore seca. Desconfiada, pegou um brinquedo que eu tinha com desenhos e letras (um dos desenhos era uma bola, lembro até hoje), levou a uma certa distância e perguntou se eu conseguia enxergar e, percebendo minha dificuldade, meus pais resolveram me levar ao oftalmologista, onde foi constatado astigmatismo.

Desde então os óculos vêm sendo um companheiro, nem sempre (quase nunca) querido, o que não deixa de ser uma injustiça, já que são eles que me proporcionam uma visão quase perfeita (pois mesmo com os óculos minha visão não é 20/20). Nesse tempo já fiquei quase um ano sem usar óculos (enxergando mal e porcamente), inclusive indo para a escola sem; já usei óculos de tudo que é tipo e cor: vermelho, azul, preto; com uma haste extramamente curva que contornava e se encaixava atrás da orelha, ficando muito difícil de cair acidentalmente (normalmente usado por crianças), quadrado, redondo (estilo John Lennon), de acetato, de aço, de acetato de novo… E também já quebrei muitos óculos de maneiras diferentes: pisando sem querer, deixando cair, jogando no chão em acessos de fúria, limpando… Ou seja, se tem algo que sei bem é o que usar óculos significa.

Mas a verdade é que usar óculos acabou se tornando algo corriqueiro, dei um jeito de contornar os pequenos empecilhos — na maioria das vezes não me importando muito. O problema é que mesmo assim essa pequena frustração fica acumulada e agora chegou o momento de tentar superar isso. Os detalhes deixo para depois.


À beira do colapso

Não, não estou à beira de um colapso nervoso. Procurando dar mais atenção à minha vida offline (não que a minha vida online fosse lá tão agitada), decidi, no final de 2008, dar menos ênfase às coisas onlines. Não que a Internet seja inútil. Ao contrário, hoje em dia não viveria normalmente sem ela, pois uso (no sentido de utilidade) muitos serviços através dela, pagar contas, recarregar o celular, transferir dinheiro etc. O chato é que perdia muito tempo com coisas triviais, desperdiçando horas em que poderia me dedicar a outros assuntos.

A primeira de minhas deliberações foi voltar com o blog para um serviço gratuito, não gastando dinheiro com algo que não me traz retorno financeiro e tampouco traz alguma grande vantagem em relação ao serviço gratuito. Não gastava uma fortuna, mas já dá pra um jantar legal por mês, ou uma sessão de cinema a mais. Ou um trocado a mais na poupança. A outra é não gastar tanto tempo navegando. Não tornar coisas que podem ficar em segundo plano para o primeiro plano.

Internet é útil? Sim! Eu gosto? Siiiiiiiiiiim. Mas também gosto de um monte de outras coisas, então, nada como balancear o tempo. Apesar disso, estou começando alguns projetos neste ano, projetos de longo prazo, em que a organização do tempo será de suma importância. Portanto, nada de “gastar” o tempo que seria dedicado a uma tarefa em outra.

Nada melhor do que tomar essas deliberações no início do ano  (aqui no Brasil o ano só começa depois do carnaval, não é mesmo?).

Amplexos.


16 por 10

Dia desses medi minha pressão sanguínea arterial e levei um susto: 16 por 10 (ou 160-e-uns-quebrados/90 mmHg).

Noutro, numa lanchonete fast-food de sanduíches, comendo um sanduíche com hambúrguer de picanha, pego a caixinha dele e leio as informações nutricionais até chegar em:

  • Sódio – 2.713mg113% das necessidades diárias de uma dieta de 2.000KCal.

Sem contar a batatinha.

Foi então que me lembrei de Super Size Me.


Observação do mundo

Cheguei ontem de São Paulo, depois de ter passado um dia de Tom Hanks no aeroporto de Guarulhos na terça-feira, dia 24, devido à crise aérea. Ao menos para mim esta crise teve um lado positivo: ficar mais alguns dias ao lado de minha namorada, prolongando uma viagem que seria de seis dias.

Ontem, na ida ao aeroporto, fiz algo que costumo fazer quando estou em um lugar novo, ou mesmo quando vou a lugares que gosto, mas que não vou com tanta freqüência: olho para as construções, para os carros, para a rotina da cidade, na tentativa de capturar tudo aquilo em minha mente. Até certo ponto eu sou uma pessoa observadora, gosto de observar cotidianos, observar as pessoas na rua, suas reações, e me questiono para onde vão, de onde vêm, o que se passa na vida de cada uma delas. O engraçado é que isso acontece principalmente quando estou em um lugar novo. Por exemplo: há uns anos me mudei para um apartamento, em um andar alto, perto da rodovia BR-101, e uma das coisas que mais gostava de fazer era, durante a madrugada, me escorar na sacada, ouvir o som da cidade silenciosa e dos carros e caminhões na rodovia, observando-os e imaginando seus motoristas, seus destinos e suas procedências. Mas com o tempo deixei de fazer isso, à medida que a visão se tornou banal para mim.

Será correto isso? Deixar que as coisas se tornem banais? Não deveríamos tentar olhar tudo como se fosse algo novo? Experimentar todas as sensações como se fosse a primeira vez que as tivéssemos sentido? Eu acho que deveríamos, pois de outra maneira acabaremos por banalizar a nossa própria existência! Escrevendo isto lembrei de algo que li no livro “O mundo de sofia”. Muita gente já o leu, poucas o entenderam. A linha geral do livro é de uma menina, Sofia, que recebe cartas de um estranho. Nestas cartas o estranho escreve sobre filosofia. Abaixo cito um trecho de uma destas cartas. É um trecho enorme, mas não consegui cortar nada. Todos os negritos fui eu que destaquei. Copiei de um e-book na internet, pois não tenho o livro em mãos:

Cá estamos de novo. Com certeza já percebeste que este pequeno curso de filosofia vem em doses pequenas. Eis mais algumas observações introdutórias. Estás a seguir-me, Sofia? Receberás a continuação. Continuar lendo


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